A biodiversidade brasileira costuma aparecer no debate público principalmente associada à conservação. É uma associação necessária, mas incompleta. Cerrado e Amazônia também concentram diversidade genética, biológica e química que ainda conhecemos apenas parcialmente e que pode alimentar novas pesquisas, ingredientes, materiais, processos e tecnologias.
Essa perspectiva ganhou relevância durante a Climate Week NYC 2026. Ao longo de mais de 1.500 eventos realizados em Nova York, uma das mensagens centrais foi a necessidade de transformar compromissos ambientais em implementação, investimento e infraestrutura. No Nature Hub, a discussão avançou especificamente sobre a natureza como infraestrutura crítica para a resiliência e a economia
Para o Brasil, essa discussão permite ir além. Se os ecossistemas são infraestrutura porque sustentam água, clima, alimentos e cadeias produtivas, a biodiversidade também pode ser compreendida como uma infraestrutura de inovação. Preservar Cerrado e Amazônia significa, nesse sentido, preservar possibilidades que a ciência ainda está começando a conhecer.
Tratar a natureza como infraestrutura muda a lógica econômica da conservação. Florestas, solos, rios e outros ecossistemas deixam de aparecer apenas como elementos externos à atividade produtiva e passam a ser reconhecidos como sistemas dos quais empresas, cadeias de suprimentos e economias dependem.
Essa foi uma das discussões explícitas do Nature Hub da Climate Week NYC 2026, que reuniu mais de 850 participantes de governos, empresas, instituições financeiras, academia, organizações indígenas e sociedade civil. Parte do encontro foi dedicada justamente à natureza como infraestrutura crítica, relacionando biodiversidade a adaptação, resiliência e desenvolvimento econômico.
No Brasil, essa leitura é especialmente pertinente porque Cerrado e Amazônia não oferecem apenas serviços ecossistêmicos. Eles também armazenam algo menos visível: informação biológica.
Cada espécie possui genes, vias metabólicas, mecanismos de defesa e adaptações construídas ao longo da evolução. Esses sistemas dão origem a pigmentos, lipídios, compostos fenólicos, terpenos, proteínas, polissacarídeos e inúmeras outras moléculas que podem se tornar objeto de pesquisa científica e, eventualmente, de aplicações industriais.
É nesse sentido que a biodiversidade deixa de ser apenas um patrimônio natural e passa a ser também uma infraestrutura para a produção de conhecimento.
Cerrado e Amazônia representam duas expressões muito diferentes dessa riqueza. No Cerrado, condições como períodos de seca, alta incidência solar, fogo e características particulares dos solos contribuíram para a evolução de espécies com diferentes estratégias de adaptação. Hoje, o bioma abriga mais de 14 mil espécies da flora, além de milhares de espécies animais.
A diversidade de espécies também significa diversidade química. Uma revisão científica publicada em 2026, por exemplo, analisou quatro plantas do Cerrado — baru, mangaba, sucupira-preta e cagaita — e identificou uma ampla variedade de metabólitos, incluindo flavonoides, taninos, chalconas, isoflavonas, ácidos fenólicos e triterpenos. O próprio estudo ressalta, porém, que ainda existem lacunas importantes para caracterizar e compreender plenamente esse potencial.
Na Amazônia, a escala é ainda maior. O ICMBio estima a existência de cerca de 40 mil espécies de plantas no bioma. Ao mesmo tempo, instituições como o INPA mantêm pesquisas não apenas sobre flora e fauna, mas também sobre genética, microbiota, interações ecológicas e bioprospecção, conectando conhecimento da biodiversidade a cadeias produtivas sustentáveis e à bioeconomia.
Isso ajuda a compreender Cerrado e Amazônia como bibliotecas vivas. Seu valor não está somente naquilo que já conhecemos e utilizamos, mas também no conhecimento que ainda pode ser produzido a partir delas.
A comparação com uma biblioteca é importante porque evita uma interpretação puramente extrativista. Uma mina gera valor principalmente quando seus recursos são retirados. Uma biblioteca produz valor quando é preservada, estudada e transformada em conhecimento. Com a biodiversidade, a lógica precisa estar mais próxima da segunda.
Reconhecer o potencial químico de uma espécie não significa que exista automaticamente um novo ingrediente ou produto pronto para o mercado. Entre uma matéria-prima da biodiversidade e uma aplicação industrial há pesquisa, caracterização, desenvolvimento tecnológico, avaliação de estabilidade e segurança, padronização, formulação e aumento de escala.
É justamente essa etapa que transforma biodiversidade em inovação.
A bioeconomia brasileira tem uma oportunidade relevante nesse ponto. Em vez de atuar apenas como fornecedora de matérias-primas naturais, o país pode agregar ciência e tecnologia à biodiversidade e desenvolver ingredientes, processos e propriedade intelectual com maior valor agregado.
Essa lógica também pode alcançar partes das cadeias produtivas que normalmente recebem pouco valor. Um exemplo é a casca do pequi. Embora o fruto tenha importância econômica e cultural no Cerrado, sua casca pode ser tratada como um subproduto da cadeia. Na Nanoterra, ela passou a ser estudada como matéria-prima para o desenvolvimento do NanoPequi, um nanoativo voltado à aplicação cosmética.
O exemplo é interessante menos pelo produto em si do que pela mudança de perspectiva que representa: uma mesma biodiversidade pode gerar mais conhecimento e valor quando ciência e tecnologia permitem enxergar além dos usos já estabelecidos.
Essa é uma das oportunidades da bioeconomia baseada no Cerrado e na Amazônia. Não se trata de explorar o máximo possível de espécies, mas de desenvolver capacidade científica para conhecer melhor os biomas, selecionar oportunidades de forma responsável e criar cadeias em que a geração de valor esteja associada à manutenção da biodiversidade.
A Climate Week NYC 2026 ajudou a reforçar a ideia de que a natureza não está fora da economia. Ela é parte da infraestrutura que sustenta a própria atividade econômica. Para um país megadiverso como o Brasil, essa visão pode ser ampliada: Cerrado e Amazônia também são infraestruturas de conhecimento e inovação.
Ainda conhecemos apenas uma parte das informações biológicas e químicas presentes nesses biomas. Por isso, conservar biodiversidade não significa apenas proteger aquilo cujo valor já conhecemos. Significa manter aberta a possibilidade de descobrir aquilo que ainda desconhecemos.
O desafio da bioeconomia brasileira é justamente transformar essa possibilidade em desenvolvimento científico, tecnológico e econômico sem separar geração de valor de conservação. É nessa convergência que a biodiversidade pode deixar de ser vista apenas como recurso e passar a ser reconhecida como patrimônio estratégico para a inovação.
Para a Nanoterra, essa visão está diretamente relacionada ao propósito de elevar o valor da biodiversidade conservada por meio de tecnologias regenerativas: fazer com que ciência e tecnologia contribuam para que a biodiversidade tenha mais valor preservada e conhecida do que degradada.
CORDEIRO, Giovanna Patricio; ARAÚJO, Kauanny Picinin; RIAL, Rafael Cardoso. Bioactive compounds associated with medicinal infusions and phytochemical preparations from Brazilian Cerrado plants: phytochemical diversity and structural elucidation. Phytochemistry Reviews, v. 25, p. 4487–4524, 2026. DOI: 10.1007/s11101-026-10261-7. Disponível em: Springer Nature — artigo completo. Acesso em: 6 out. 2026.
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NANOTERRA. NanoPequi™: ficha técnica 2026. Goiânia: Nanoterra, 2026.